Flor Despedaçada

 autora:  Patrícia Rodrigues da Silva

Helisa estava sentada em uma calçada, triste com ela mesma e com a família, revoltada com o mundo,  despedaçava uma flor:

Helisa – Bem-me-quer, mal–me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer. Quer saber? Ninguém me quer.

(Amassa o resto da flor e joga no chão com raiva).

Mariana é uma garota com mais ou menos a mesma idade de Helisa, porém com outro semblante, tem muita paz no olhar e apesar da pouca idade transmite segurança e sabedoria.

 

(Mariana entra em cena logo depois de Helisa, e fica observando ela despedaçar a flor, assim que ela joga o que resta da flor no chão, Mariana se aproxima e guarda dentro de uma bolsa o resto da flor. Com um olhar comovido ela diz:)

Mariana – Por que você fez isso? Coitadinha da flor...  está toda despedaçada! Ela não tem culpa da sua tristeza, já pensou se todas as pessoas do mundo que estivessem tristes resolvessem sair por ai despedaçando flores?  já não existiria um jardim sequer no mundo. Mas me diga, por quê toda essa revolta?

Helisa – Ninguém me ama, ninguém me quer, meus pais estão sempre tão cheios de problemas que até esquecem que eu existo. Na semana passada , tinha uma reunião na minha escola e os dois se esqueceram, já estou até acostumada com isso; piores ainda são meus irmãos: o mais velho eu quase não vejo, ele nunca fica em casa e quando fica é só para brigar. Da minha irmã eu tenho até dó, nem se casou e já vive brigando com o noivo que é um verdadeiro cachaceiro. Resumindo: sempre quando eu preciso de alguém para conversar, para esclarecer minhas dúvidas e meus medos tudo o que eu consigo ouvir é: eu não tenho tempo, vê se não perturba, tenho mais o que fazer. Eu não agüento mais essa situação, e foi assim que eu cheguei a essa conclusão: ninguém me ama, ninguém me quer!

Mariana- É realmente você tem alguns problemas, mas pode acreditar, você se revoltar com o mundo não vai adiantar em nada. Todo esse desamor existente na sua família não pode ser pago com mais desamor. Tudo funciona como uma cadeia, seu pai briga com a sua mãe por que teve problemas no trabalho, sua mãe acaba descontando no seu irmão que acaba descontando em você, e você não tendo mais em quem descontar acabou descontando na pobre flor que não tem nada com essa história. Mas tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse dado uma chance para o amor.

Helisa- (Irônica) –Amor? E o que o amor tem com isso?

Mariana- Tudo! Se logo o início dessa cadeia de desamor a sua mãe tivesse retribuído a ira de seu pai com amor tudo teria terminado por ali mesmo, ela não teria brigado com o seu irmão e assim por diante. Mas as pessoas já se acostumaram a descontar as suas dificuldades, as amarguras, a raiva nos outros como se isso resolvesse seus problemas.

Helisa- Pode até ser, mas não é assim que as coisas acontecem, e você mesma acabou de dizer isso; e tudo continua como sempre, e sempre será assim. Sabe por que? Porque o amor não existe, as pessoas só se enganam, amor de verdade não existe, nunca existiu! Não tem remédio a vida é assim, o jeito é se conformar e ir seguindo com o coração tão despedaçado quanto aquela flor.

Mariana- Não! Você não deve pensar assim! E o amor de Deus onde fica nesta história? Ele ama verdadeiramente todos os seus filhos, e você também é filha dele.

Helisa - Deus? Você vem me falar em Deus? Eu nem sei se ele existe, e se existe deve estar muito ocupado para resolver os meus problemas.

Mariana - Deus existe sim, e fique sabendo que mesmo você duvidando da sua existência Ele está olhando por você a todo o momento, é só você abrir o seu coração para poder sentir o seu amor infinito.

(Helisa fica um pouco pensativa, olha para Mariana e diz):

Helisa - Como abrir um coração que está tão despedaçado? Como eu posso acreditar no amor de Deus que eu nem sequer vejo, se a minha própria mãe que sempre esteve ao meu lado, nunca me ensinou o que é o amor, nunca me amou, se cuidou de mim até hoje foi por pura obrigação.

Mariana - É claro que sua mãe te ama, talvez ela tenha dificuldades para conduzir a própria vida com tantos problemas, com certeza ela também se esqueceu que existe alguém capaz de amá-la tanto que deu a sua vida para que seus pecados fossem perdoados.

Helisa - E daí? Se Ele deu a vida por nós, o que eu e minha família ou qualquer outra pessoa tem haver com isso?

Mariana - Não seja ingrata, garota, se Jesus não fosse crucificado seríamos nós. Agora me diga; Ele não nos deu a maior prova de amor do mundo?

Helisa - (Muito confusa) – Sei lá, o que eu sei é que esse tipo de amor não existe mais, não faz parte da vida de ninguém, se assim fosse não haveria tanta violência no mundo.

Mariana - A violência e só uma conseqüência, os homens se afastaram da presença de Deus, colocaram outras prioridades em suas vidas, estão acostumados a acordarem e verem o sol todos os dias no mesmo lugar que nem se dão conta que se ele brilha é por Deus, se a noite cai e a lua aparece com as estrelas também é por Deus, se esquecem de agradecer pelo mundo maravilhoso em que vivemos, e pior ainda,  o destrói sem o menor encargo de consciência. Tudo seria tão diferente se as pessoas abrissem seus corações para Deus, mas isso raramente acontece. Olha você, por exemplo, está com alguns problemas, mas não se lembrou de se abrir com Deus, tudo o que soube fazer foi reclamar e se revoltar contra tudo e todos.

Helisa - É fácil falar quando o problema é dos outros, com certeza você tem uma família que te entende, que dá importância á você.

Mariana - Felizmente eu tenho sim, mas nem sempre foi assim, eu também tive e continuo tendo problemas, o que mudou foi a minha maneira de ver as coisas, nada na nossa vida acontece por acaso, se eu estou passando por uma dificuldade eu tenho que procurar crescer com ela; Deus tem um propósito na vida de cada um, cabe a nós lutar por ele.

Helisa - Que propósito tenho eu, viver com pessoas que não estão nem aí pra mim, crescer e ser mais uma drogada no mundo? Sem amor, sem ninguém?

Mariana - Isso pode acontecer se for uma opção sua, você pode mudar a situação só depende da sua vontade.

Helisa - Você quer dizer que se a minha vida está uma droga a culpa é minha, fui eu que quis assim!

Mariana - Não é bem assim, temos livre arbítrio, você não vai ser uma drogada se não consumir drogas, se você distribuir amor e compreensão jamais ficará sozinha sem amor. A mudança tem acontecer primeiro dentro do seu coração, comece a dar uma chance para que Deus tome conta dele, não permita que sentimentos como a revolta e a amargura tomem conte de você, quando se sentir fraca e sozinha leve seu pensamento á Deus, não diga à Deus o tamanho do seu problema, mas ao seu problema o tamanho do seu Deus. Acredite que para Deus nada é impossível. Você ainda é muito jovem, tanto quanto eu, está em tempo ainda de ter uma vida de paz e felicidade. A sua família precisa da presença de Deus em seus corações, e você pode ser o canal para que isso aconteça.

Helisa - Não sei se devo acreditar em você.

Mariana - Não estou pedindo para você acreditar em mim, mas sim em Deus, pode ter certeza que você não terá nada á perder.

Helisa - E como eu posso fazer isso? A minha casa é uma verdadeira guerra, é tudo tão difícil.

Mariana - Antes de qualquer coisa, abra o seu coração, seja sincera e reconheça que você também não é perfeita, peça á Deus que Ele te ajude, tenha fé que Ele te guiará, te ajudará a dizer as palavras certas na hora certa; mas isso só acontecerá se você entregar sua vida verdadeiramente á Deus, afinal foi Ele quem a criou, e sabe melhor do que ninguém o que é melhor para você.

Helisa - É não custa tentar.

Mariana - Tenha fé que tudo irá mudar. Bem eu preciso ir, que Deus te abençoe.

(Mariana dá os primeiros passos e antes que ela termine de sair Helisa pergunta):

Helisa - Qual é o seu nome?

Mariana - Mariana.

(Ela termina de sair. Em seguida Elisa também sai, alguns momentos se passam, depois entra uma senhora bem de idade que conversa com uma criança).

Criança - Conta mais vovó, como que a senhora conseguiu tudo o que tem, a senhora tem muitas coisas não é mesmo?

Vovó - Sim minha filha, eu tenho muitas coisas e quero que você fique com todas elas.

Criança - Mas então vovó me conte como a senhora conseguiu tudo?

Vovó - Ah, minha filha foi há muitos anos atrás, eu era uma garota um pouco mais velha que você, e estava sentada neste mesmo lugar e com muita raiva despedaçava uma flor, aí apareceu uma menina que me deu toda a sua fortuna.

Criança - Aí ela ficou pobre?

Vovó - Não, ela ficou mais rica.

Criança - Mas como? A senhora acabou de dizer que ela te deu toda fortuna que tinha!

Vovó - A fortuna que ela me deu é do tipo que se multiplica quando se dá a quem precisa.

Criança - E que fortuna é essa, vovó?

Vovó - O amor, aquela menina me ensinou a amar, e me ensinou a ter a maior fortuna do mundo: a fé em Deus.

Criança - Não entendi, e como o amor pode deixar a senhora rica? E onde estão todas as coisas que a senhora quer que fique comigo?

Vovó - O amor me deu tudo o que tenho e o que já tive, minha família meus amigos, e a minha fé em Deus, antes de receber a fortuna daquela menina eu não acreditava no amor. E as coisas que eu quero que fique com você se resume em uma só palavra a fé em Deus, se você acreditar nele com todo o seu coração todas as outras coisas lhe serão acrescentadas, inclusive o amor.

Criança - E como eu posso conseguir isso, vovó?

Vovó - Ah, minha filha, é só não despedaçar o coração como eu fiz com aquela flor, e se entregar de coração aberto á Deus.

(As duas se levantam para sair quando entra uma senhora e entrega uma flor para a criança, cumprimenta as duas com um sorriso e sai. A avó pega a flor da mão da criança, abraça-a e saem).

A FLOR DO FINAL DA PEÇA TEM QUE SER DA MESMA ESPÉCIE E COR QUE A DO COMEÇO.

 

Patrícia Rodrigues da Silva

 

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